Microsoft admite a possibilidade de um Windows Open Source
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Apesar do sistema operativo, juntamente com o Office, gerar a maior parte da receita da empresa, a Microsoft admite a possibilidade de um dia “abrir o código” disponibilizando-o gratuitamente.

O império de software da Microsoft reside no Windows, o sistema operativo de computadores que corre em muitos dos PC, portáteis, telemóveis e servidores de todo o mundo. Juntamente com o franchising do Office gera a maior parte da receita da empresa. Contudo, a empresa poderá, um dia, “abrir o código” que se encontra na base do sistema operativo – disponibilizando-o gratuitamente. Assim diz Mark Russinovich, um dos principais engenheiros da empresa. “É definitivamente possível.” Diz Russinovich. “É uma nova Microsoft.”

Russinovich está sentado à frente de centenas de indivíduos que passam os seus dias a trabalhar com milhares de computadores. Russinovich ajudou a criar o Windows e carrega um dos títulos mais respeitados na maior empresa de software do mundo: Microsoft Technical Fellow. Mas aqui, no palco de uma conferência em Silicon Valley, está posicionado em frente de um público cuja relação com a Microsoft é, na melhor das hipóteses, complicada.

A conferência intitula-se ChefConf. Chef é uma ferramenta que ajuda os aficionados por tecnologia a configurar e operar as diversas máquinas necessárias para gerir um site, uma aplicação para smartphone ou qualquer outro tipo de software de negócios. É uma ferramenta open source o que significa que é geralmente utilizada com software open source. Quando Russinovich pergunta quantas pessoas na plateia utilizam Windows nas suas máquinas – somente uma pessoa levanta a mão. Uma pessoa no meio de centenas. A maioria utiliza o Linux, um sistema operativo open source.

Mas é isto que Russinovich espera: “Esta é a realidade em que vivemos hoje.” O mundo da tecnologia mudou de forma significativa. Muitas empresas – e muitos clientes da Microsoft – contam agora com código open source. Tal significa que a Microsoft também tem que abraçar esta filosofia. Russinovich destaca que a empresa permite a utilização de Linux no Azure, o seu serviço de computação na nuvem e uma forma de alugar computadores pela internet, e que hoje o Linux corre em pelo menos 20% desses computadores.

É uma grande mudança para a Microsoft. Como Russinovich explica, trata-se de uma mudança necessária. Considerando o quão popular se tornou o Linux a Microsoft poderá ir ainda mais longe, não só permitindo software open source nos seus serviços na nuvem mas também transformando o Windows em software open source. Russinovich avança:

“Cada conversa, que você possa imaginar, sobre o que devemos fazer com o nosso software – aberto, não aberto, serviços – aconteceu.”

É certo que a Microsoft não irá tratar da open source amanhã – se é que alguma vez o fará. O Windows é ainda uma parte muito significativa da receita da Microsoft. Como Russinovich diz, passar um código tão complexo para open source não é fácil. Pergunta “Se você passar algo a open source que exige cientistas espaciais e três meses a configurar, qual o objetivo?” Mas a Microsoft já disponibiliza uma versão gratuita do Windows (contudo sem partilhar o código subjacente) e também já passou a open source outras peças importantes do seu império de software. Os seus comentários públicos demonstram, de forma austera, o quanto o mundo tecnológico tem evoluído – e o quanto a Microsoft evoluiu.

Open Source significa mais do que apenas a gratuidade

O futuro da tecnologia não reside no software pago, tradicionalmente oferecido pela Microsoft. O Linux mudou-se para os centros de computação em massa que potenciam a internet e os sistemas operativos como o Google Android estão a correr em muitos dos telemóveis, tabletes e outros serviços a nível mundial. O futuro, mesmo para a Microsoft, reside na venda de outros serviços incluindo serviços de computação na nuvem, como a Microsfot Azure e outras aplicações e serviços que correm nos sistemas operativos a nível mundial.

Ao proporcionar o Windows em open source a Microsoft poderá expandir a utilização do seu sistema operativo. O open source é mais fácil de testar, mais fácil de moldar e mais fácil de construir – e se o sistema operativo for mais utilizado isso significa um maior público para as aplicações da Microsoft utilizadas no Windows.

No início deste ano a Microsoft disponibilizou a ferramenta .NET, uma forma popular de construir aplicações online, em open source. A esperança é que tal venha a contribuir para a expansão do alcance da ferramenta. Programadores externos têm estado a trabalhar para mover a ferramenta para máquinas Linux e Macs da Apple. No fim, Russinovich diz que isto irá ajudar a Microsoft a vender outros produtos.

Em relação à .NET avança que se trata “de uma tecnologia que pode levar as pessoas a utilizar outras soluções da Microsoft (…) tornando-as mais disponíveis para as nossas outras ofertas, que de outra forma poderiam não conhecer. Se estiverem a utilizar tecnologia Linux com a qual não possamos trabalhar, não poderão ser nossos clientes.”

Além do mais, se a Microsoft transferir o Windows para open source o sistema operativo pode ainda ser uma fonte de rendimento: o código do Windows estará gratuitamente disponível mas muitas das empresas a nível mundial ainda necessitarão de um fornecedor que possa empacotar, distribuir e atualizar o sistema operativo. É desta forma que o Linux funciona. E o Android também. O open source é algo complicado – não é tão simples como grátis/não-grátis. Quando o código se encontra em open source, partilhado com o mundo em geral, os resultados são inumeráveis.

“Uma história com passado de trabalho”

À medida que Russinovich abandona o palco falo com Phil Dibowitz, engenheiro do Facebook e parte do mesmo painel de discussão. O Facebook é uma empresa que leva o open source a formas extremas – chega mesmo a disponibilizar o seu hardware em open source – e Dibowitz está agradavelmente surpreendido com a disposição da Microsoft para discutir a ascensão do open source (considerando a forma como a empresa procurou suprimir, de forma ativa, software open source no passado). Dibowitz encara isto como um sinal inequívoco de que a Microsoft está a evoluir, avançando: “Isto não teria acontecido há dois anos atrás.”

Adam Jacob, o diretor de tecnologia da empresa por detrás de Chef, vê isto da mesma forma afirmando que Russinovich defendeu a sua posição numa conferência baseada no mundo do Linux e do seu antecessor, UNIX. O próprio Russinovich irá dizer-lhe que se encontra aqui por uma razão muito específica: ele quer que o mundo open source saiba que a Microsoft trabalha agora em novas formas de trabalho, que não é a empresa que era.

”Nós temos um passado de trabalho (…) e estamos a bater os tambores tanto quanto podemos.”

O percurso da Microsoft até este ponto é longo e sinuoso. Durante anos as pessoas questionaram se a empresa iria mesmo mudar a sua forma de trabalhar. Agora, pessoas como Dibowitz e Jacob deixaram cair o seu ceticismo – e pelo menos, a certo nível, a ampla comunidade de tecnologia está mais calorosa com a empresa. Nenhum dos presentes na plateia era utilizador de Windows – mas quando a ideia de um Windows open source apareceu, aplaudiram. Alto.

Fonte: Wired

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